Meu nome é Eros !
Já são 5:00 horas da manhã e acabei de chegar em minha casa no subúrbio do Rio de Janeiro, uma casa simples com apenas três cômodos, uma sala pequena, cozinha e um banheiro onde também tem uma área para lavar as roupas e estender no varal. O sol começa a nascer no horizonte, e ao longe vejo o Cristo Redentor de braços abertos como se quisesse me dizer que meus pecados estariam perdoados todas as vezes que eu chegasse em casa, é uma pena que isso não é verdade porque arrependimento é um tipo de sobremesa que só se come uma vez na vida e eu não consigo parar de saborear o pecado.
Coloco a jarra de café para esquentar no fogo do fogão e espero ferver para coar em um coador feito de pano, algo rústico que aprendi na roça onde nasci e ainda mora os meus pais. Irônico fazer café da manhã como se tivesse dormido a noite toda, mas ao contrário, estava na esbórnia atendendo uns e outros por miseres trocados de reais, algo lastimável, infelizmente não tenho outra opção a não ser me vender todos os dias.
Na gaveta do armário da cozinha apenas dois pães e um pouco de manteiga que restaram da última compra do mês. Fico em dúvida se tomo banho primeiro ou se alimento, acho que me sinto sujo e vou primeiro me lavar e só então tomar esse café da manhã. No banheiro tenho duas cuecas sujas que aproveito para lavar com o próprio sabão que me lavo no próprio chuveiro e estendê-las no arame que liga o cano com o fio da tomada da lâmpada no canto esquerdo, um tipo de gambiarra que todo pobre sabe bem.
Uma música que dancei anoite na boite não sai da minha cabeça e logo começo a cantar para aliviar a tensão da madrugada que ainda insiste em permanecer no meu corpo, louca, louca, louca aquela música da cantora Shakira que dancei como se tivesse saído de mim. Ouço vozes e martelos batendo na casa ao lado, me pergunto se estão em construção, mas acho que deve ser meu canto desafinado e alto que tá incomodando, mesmo assim não paro de cantar - eles que se danem, não pagam minhas contas- e quando estão gemendo e gritando em seus coitos eróticos, nunca reclamei. Povo chato e fresco, devem se achar os donos da favela. Continuo mesmo assim, como se a noite ainda não tivesse terminado.
Tenho uma gata que se chama faísca, e ela sempre dorme dentro do pequeno guarda roupas de duas portas que tenho no quarto, hoje ainda não a vi, deve está como eu na caça de aventuras e prazer. Gosto da companhia dela, é meiga e não dá trabalho nenhum a não ser quando entras no cio e começa a gemer feito uma doida desesperada, a área fica cheia de gatos, nisso eu a invejo, queria entrar no cio de vez enquanto, pra não ter que ficar caçando em todos os lugares sexo e dinheiro.
O café está gostoso, forte com pouca açúcar, tive que fazer uma espécie de torrada com os pães que já estavam duros como pedra, passei a manteiga e assei na frigideira do fogão, que delícia, nem tudo o que é pobre é ruim. Já estão dando 7:00 e preciso dormir pelo menos até o meio dia quando me preparo para trabalhar como frentista em um posto de gasolina perto da orla do pier 4. A vida tem sido difícil, mesmo assim a labuta diária não me deixa desanimar, amanhã recebo meu salário e tenho que reservar um pouco para enviar para os remédios da minha mãe que sofre com tuberculose.
Coloco o relógio da penteadeira pra me acordar as 11:55, penteio o cabelo, coloco meias nos pés, um moletom , fecho a cortina do quarto e apago a luz como se o dia fosse noite, olho algumas novidades no celular e vejo que as mensagens são sempre as mesmas; encontros eróticos e casuais. Nem ligo a TV, acho que o cansaço pode ser interrompido por qualquer novela ou programa matinal, então deixo pra assistir alguma coisa depois.
Tenho em meu quarto uma cama improvisada feita de madeira compensada e paletas, ainda bem que o colchão é bom, comprei nas casas Bahia na promoção por $200 reais, Deixo uma mensagem para um antigo cliente que se tornou meu amigo, seu nome é Ruan e ele é padeiro, trabalha fazendo bolos e biscoitos, sempre trazem pra mim no fim de semana quando vamos a praia para passear e nadar no mar, já até namoramos um tempo, mas a vida de puta não sai de mim e essa coisa de namoro é pra gente fresca que gosta de casar e ter filhos, acho que não nasci pra isso, tenho em minha liberdade minha maior bandeira.
Ainda sou fumante, comecei a fumar com 10 anos de idade escondido dos meus pais, tinha um amigo que sempre brincava comigo, ele era mais velho do que eu acho que deveria ter uns 15 anos, seu nome era Pablo e fumava feito uma chaminé, aliás além de aprender a fumar, foi com ele que aprendi a transar e mentir para os meus irmãos Mauro e caetano, os dois são gêmeos e tinham 17 anos naquela época, também era amigo do Pablo.
Continua...
01
Nenhum comentário:
Postar um comentário